O conceito de tolerância passou por um processo de resignificação no decorrer da história; derivado das antigas idéias européias abalizadas pelo cristianismo e iluminismo, a tolerância relacionava-se com a atitude de suportar. Segundo Clodoaldo Meneguello Cardoso:
“Tendo como referências o cristianismo e as ideias iluministas, o sentido moderno de tolerância acabou por significar a atitude de ‘suportar’ aquele ou aquilo que se apresentasse como desvio da norma, do padrão e do modelo: a civilização européia. E ainda mais contundente: suportar com paciência aquilo que é desagradável, injusto, defeituoso. Foi assim que os europeus viam a necessidade de tolerar os povos conquistados”.
Assim o superior tolerava o inferior que era visto como alguém fora da regra, fora do convencional. A tolerância também se relacionava ao sentido de aceitar com indulgência, compadecer. Pesquisando a palavra indulgência no dicionário Aurélio, verificamos que se refere:
- Qualidade de indulgente.
- Clemência, misericórdia.
- Tolerância, benevolência:
- Revela indulgência no julgar.
- Remição das penas; perdão.
Dessa forma a palavra tolerância estava relacionada não tão somente a uma relação hierárquica, como também, entre o bem e o mal.
Para o liberalismo a tolerância significa o respeito a diversas culturas entendidas de forma insulada. Pode-se deduzir em uma leitura desprovida de senso crítico, que tolerante é todo aquele que respeita cabalmente os valores de todas as culturas, todas as posições políticas, todas as situações sociais. Nesse sentido, estaria sendo intolerante o descendente de judeus que ficasse revoltado ao ver alguém ostentando uma suástica nazista. Outra forma distorcida de pensar que deriva dessa concepção de tolerância encontra guarita na tradição escolar de estereotipar diversas culturas, desconsiderando diversos aspectos culturais entre eles o contínuo processo de transformação cultural.
Um aspecto que confrontou meu modo de pensar foi à existência paralela da tolerância boa e intolerância ruim com a tolerância ruim e intolerância boa enunciada pelo filósofo jurídico Norberto Bobbio.
Quando defendemos os valores de liberdade, respeito às diferenças culturais e convivência pacífica, estamos falando da tolerância em sentido positivo e rejeitando atitudes de preconceito e de todas as formas de exclusão do diferente que constituem a intolerância em sentido negativo. Por sua vez, a tolerância negativa veicula sentidos de indiferença diante do outro, condescendência diante do erro, indulgência com a opressão, tudo em nome de uma tranquilidade de vida descompromissada. A denúncia desta e a sua oposição significam defender a intolerância em sentido positivo: aquela que revela a firmeza nos princípios, isto é, que defende a justa exclusão de tudo aquilo que provoca opressão e desigualdades sociais (BOBBIO, 1992 apud CARDOSO, 2009, p.5)
Dessa forma a escola deve ser um ambiente propicio para o amplo debate sobre o que não deve ser tolerado de forma alienada e passiva pelo aluno, isso pode ser feito através de atividades que estimulem o senso crítico e a autonomia de pensamento.
Referências
CARDOSO, CLODOALDO MENEGULLO CARDOSO. Introdução conceitual para educação na diversidade e cidadania. Coleção UNESP-SECAD-UAB, 2009.
DICIONÁRIO Aurélio XXI, CD-ROM, 2004.
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